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Como é que é, Thalles?

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“Quando você é rico, quando você é famoso, quando você é inteligente, quando você tem tudo… a máquina roda sozinha”. “Eu sou o diferente no meio dos gospel (sic); Senhor, mas eu estou acima da media!” “Aqui, é bater em bêbado; música gospel é tudo igual, irmão, me desculpe a expressão; qualquer um escreve e faz”. “A Igreja me segura, me impede…” “Vocês gostam das minhas músicas, quem gosta? Mas eu vou dizer: o próximo disco não vai ser pra vocês”. “Me desculpe se entristeci vocês, mas meu Deus me pediu: ‘Thalles, tudo o que você podia fazer por eles, você já fez; os filhos dos desviados ouviram o evangelho, você pregou o evangelho de uma forma diferente pra todo mundo e só você faz o que você faz, do jeito que você faz. Eles amam você, veneram você, mas você está no lugar errado. Sai daí e vai lá pra fora’”.

As frases acima foram tiradas de um vídeo do Youtube, e foram ditas pelo cantor Thalles Roberto em uma apresentação em Brasília recentemente. Na ocasião, o cantor parece anunciar que vai deixar o meio “gospel” e direcionar sua carreira para o meio secular.

Se for o caso, Thalles não será o primeiro artista evangélico a fazer esse caminho; Amy Grant e a banda Catedral já fizeram algo assim antes. E coincidentemente, ambos voltaram, algum tempo depois para o mesmo meio evangélico.

Quando se diz ser “acima da media”, está Thalles se referindo ao aspecto musical/artístico? Se for, então é preciso perguntar a ele a que “meio gospel” ele se refere. Esse termo é tão inapropriado e sem sentido, que realmente fica difícil saber.

Talvez ele tenha se referido à popularidade, ao tamanho de público, venda de discos e shows. Se for isso, então de fato ele está acima da media, entre os artistas Cristãos brasileiros.

Se ele de fato se refere ao aspecto musical, Thalles também tem alguma razão; o chamado meio “gospel” é mesmo muito fraco e cheio de mediocridade. Não precisa muito para se destacar, muito embora, gosto musical seja algo difícil de se mensurar. Cada um tem suas preferências. Eu por exemplo, nunca fui seduzido pelas canções do Thalles. Acho suas músicas um pouco amorfas, meio sem estrutura e com letras às vezes confusas. Ele tem um certo swing, mas não gosto de sua voz, acho que ele canta de uma forma muito agressiva, forçada, quase que esganiçada. Se ele já não tem problemas vocais é bom ficar de olho, porquê pode vir a ter em muito pouco tempo. De minha parte, prefiro ouvir gente como João Alexandre, Jorge Camargo, Guilherme Kerr, Marcos Sal da Terra, Gladir Cabral, Nelson Bomilcar e Carlinhos Veiga. Na minha opinião, esses sim são acima da media.

Devo confessar que não entendi bem essa decisão de “sair do meio gospel” para alcançar os músicos seculares. Thalles já tem status de celebridade; ele já frequenta os mesmos programas de entrevistas e de auditório que os artistas seculares. Ele já tem convívio com boa parte desse meio secular. Hoje, música “gospel”é somente mais um dos vários estilos musicais que existem por aí. Suas músicas são inclusive admiradas e ouvidas por gente fora do meio evangélico. Essa semana mesmo, Daniele Hipólito, ginasta brasileira, disse que ouve música “gospel”, Thalles inclusive, antes das competições. Segunda ela, ajuda a relaxar.

Se Thalles sentiu a necessidade de se expressar artisticamente de outra forma, usando canções sem cunho explicitamente Cristão, não vejo nenhum problema nisso. Carlinhos Veiga, faz um trabalho de resgate das tradições culturais da região centro-oeste, paralelamente ao seu trabalho evangélico. Carlinhos tem um repertorio fantástico de modas de viola, catiras e outros gêneros e vive frequentando eventos culturais. Não há nenhum problema nisso. Não há necessidade de justificar ou mistificar demais essa questão.

A repercussão do vídeo de Thalles foi tão grande que pouco depois ele mesmo postou um outro vídeo no Youtube para supostamente explicar a sua decisão. Mas, às vezes a emenda é pior que o soneto. Nesse Segundo vídeo, o cantor termina se enrolando ainda mais.

Na tentativa de se justificar, ele já começa esse segundo vídeo sendo um pouco arrogante ao dizer que quer explicar “tudo isso que aconteceu, que envolveu o Brasil”. Mas em seguida ele pede perdão pelo que soou como se ele estivesse desvalorizando seus colegas de profissão, dizendo: “A nobreza de um homem Cristão como eu, um homem de Deus, é pedir perdão. Me perdoe; no afã de falar o que Deus tava me mandando fazer eu posso ter me equivocado.”

Realmente é nobre reconhecer um erro. Em seguida ele segue falando sobre o seu plano e chega mesmo a usar um quadro-negro (na verdade, quadro branco), para explicar como todos os seus CDs e DVDs fazem parte de um roteiro. Se alguém entendeu, por favor me explique. Não vi muita lógica na sequência, em especial quando ele menciona seu trabalho mais recente “Ide”, dizendo: “Depois do projeto ‘Ide’, vem o projeto ‘Luz’; o que é o projeto ‘Luz”? eu fui, não fui? Agora quero cantar para as pessoas lá de fora, para aqueles que nunca ouviram a Palavra, para aqueles que não tem acesso à palavra de Deus”. Muito nobre, novamente; se é mesmo assim, ele deveria entrar em contato com missionários na China, na Índia e na Coreia do Norte que tem o mesmo objetivo que ele. Posso indicar vários.

Mas, o pior de tudo nesse vídeo é no final quando ele diz: “nunca vou deixar de adorar meu Deus, nunca vou deixar de glorificar a Deus, porque tudo o que eu tenho, eu consegui cantando música Gospel”. Para não julgar, prefiro dar o beneficio da dúvida para Thalles; me recuso a acreditar que ele tenha tido a intenção de dizer que o motivo para glorificar a Deus são as coisas que conseguiu cantando música “gospel”. Acho que ele apenas escolheu mal as palavras, mais uma vez. Talvez venha aí um terceiro vídeo, com mais explicações. Vamos aguardar.

Um abraço,

Leon Neto



CINEMÚSICA: Leon Neto é mestre em musicologia pela Universidade de Campbellsville e Doutorando em Pedagogia Vocal pela Universidade Shenandoah. Atualmente atua como professor no departamento de Louvor na Liberty University.
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